“já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma
é a única coisa que me acalma “
(Leminski)
Domingo.
Dor de cabeça.
Tarde mórbida, sem graça, sem confusão psico-literária.
Deitei-me com Leminski.
Adormeci, decidi sonhar com algo pleno, ser rica ou algo assim, mas acabei por ver coisa melhor. Bem melhor!
Passei três longas horas entre morrer e acordar, mas minha filha não me deu muitas escolhas, eu era a todo o tempo, cutucada e avisada de que o passarinho estava na área - " Tudo bem, filha. Ele está na gaiola" "Mas, mamãe, está tão fio!" - De que as bolachas não estavam sobre a mesa e que, o bendito copo dos peixinhos, não estava acessível o suficiente para que ela mesma matasse a própria sede.
Não pude morrer em paz, exceto entre 15:00 e 16:20. Onde o silêncio imperou, de corpo e alma, dentro do meu quarto.
Acordei com gosto de fim de tarde em Recife, com quarto de André, com vontade de carinho.
Da morte de hoje à tarde, sobraram a cartela vazia dos analgésicos e dois lençóis impregnados das minhas impressões. Meu cheiro.
Nunca aprendi a tocar violão,
Não conheci o país com minha mochila e R$ 1,50 no bolso,
Nunca tomei banho de mar na madrugada,
Nunca mergulhei em Fernando de Noronha,
Nunca vi a neve.
Na vida, socialmente comportada escolhida por meus pais, guardei meus melhores planos, aqueles mais loucos, por baixo da caixa de papelão onde guardo meus certificados e documentos mais antigos, contas de água e de luz, faturas de cartão de crédito e certidão de nascimento de Annie.
E não morri, exceto essas mortes de meio de tarde de domingo.
Agora, no auge dos meus vinte e três anos, estudando nas madrugadas para mais um vestibular, declaro que ainda vou assistir televisão nos dias de ócio, que vou casar e arrumar outro emprego, madrugar nos meus plantões em hospitais que pagam mal, vou bancar impostos e escola. Deixar minha filha de castigo, todas as vezes em que ela beber ou chegar de manhã em casa sem a minha autorização...
É assim, ainda somos iguais aos nossos pais.
Não era isso que já magoava Belchior?
Perante isso tudo, resolvo, conscientemente, fazer o extremo inverso de Leminski.
“quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta minha adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência”
(Leminski)
Começarei minha adolescência no meu aniversário de setenta.