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domingo, 1 de junho de 2008

Da Morte de hoje à tarde

“já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma “

(Leminski)

Domingo.
Dor de cabeça.
Tarde mórbida, sem graça, sem confusão psico-literária.

Deitei-me com Leminski.

Adormeci, decidi sonhar com algo pleno, ser rica ou algo assim, mas acabei por ver coisa melhor. Bem melhor!
Passei três longas horas entre morrer e acordar, mas minha filha não me deu muitas escolhas, eu era a todo o tempo, cutucada e avisada de que o passarinho estava na área - " Tudo bem, filha. Ele está na gaiola" "Mas, mamãe, está tão fio!" - De que as bolachas não estavam sobre a mesa e que, o bendito copo dos peixinhos, não estava acessível o suficiente para que ela mesma matasse a própria sede.

Não pude morrer em paz, exceto entre 15:00 e 16:20. Onde o silêncio imperou, de corpo e alma, dentro do meu quarto.

Acordei com gosto de fim de tarde em Recife, com quarto de André, com vontade de carinho.
Da morte de hoje à tarde, sobraram a cartela vazia dos analgésicos e dois lençóis impregnados das minhas impressões. Meu cheiro.

Assim, depois de uma quase morte, sem túnel, sem luz, nem essa frescurada toda, fiz uma auto-análise. Comecei a rever meus planos guardados:
Nunca aprendi a tocar violão,
Não conheci o país com minha mochila e R$ 1,50 no bolso,
Nunca tomei banho de mar na madrugada,
Nunca mergulhei em Fernando de Noronha,
Nunca vi a neve.

Beber no Recife Antigo foi a minha maior peripécia em todos esses anos. Gritar “Eu te amo” para o meu noivo, no meio dos passantes, foi quase uma libertação. Tenho certeza de que fui praguejada, excomungada e afins. Era Páscoa, dia da Paixão de Cristo, Zé Pimentel com oitenta anos ainda no papel de nosso senhor Jesus Cristo que morreu aos trinta e três, e eu estava bebendo vinho barato e falando besteira. Coisa da vida. Lembro que falei de Amor e Camões. Não pode ser assim, tão pecado!

Na vida, socialmente comportada escolhida por meus pais, guardei meus melhores planos, aqueles mais loucos, por baixo da caixa de papelão onde guardo meus certificados e documentos mais antigos, contas de água e de luz, faturas de cartão de crédito e certidão de nascimento de Annie.
E não morri, exceto essas mortes de meio de tarde de domingo.

Agora, no auge dos meus vinte e três anos, estudando nas madrugadas para mais um vestibular, declaro que ainda vou assistir televisão nos dias de ócio, que vou casar e arrumar outro emprego, madrugar nos meus plantões em hospitais que pagam mal, vou bancar impostos e escola. Deixar minha filha de castigo, todas as vezes em que ela beber ou chegar de manhã em casa sem a minha autorização...
É assim, ainda somos iguais aos nossos pais.

Não era isso que já magoava Belchior?

Perante isso tudo, resolvo, conscientemente, fazer o extremo inverso de Leminski.

“quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta minha adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência”

(Leminski)

Começarei minha adolescência no meu aniversário de setenta.