quarta-feira, 21 de maio de 2008

I

Não. Não estou completamente ociosa, nem deprimida. Estou, apenas, cansada. Minha vida tem sido algo parecido com um episódio destrutivo, compulsivo e recorrente. Um ciclo vicioso que me alterna ciclos de euforia e de tristeza, não necessariamente nessa ordem.

Em torno disso, trabalho e cuido de casa e de minha filha. Realizo primárias definições acerca de alguns assuntos coerentes, escrevo poesias e prosas constituindo com meu computador a grande parceria: ele entra com o silêncio, eu, com a tristeza. O resultado surpreende.

Sou jovem, sou noiva, tenho apelido carinhoso e um passarinho numa gaiola da sala. Tenho alguns grandes desgostos tatuados e tenho orgulho de algumas cicatrizes, como essa, na coxa esquerda que consegui, corajosamente, enquanto salvava a equipe de vôlei e essa outra, no rosto, que só tenho porque tive a audácia de obedecer meu pai. Ele me disse: pegue o botão de sua blusa. E assim o fiz. Só que para ele ainda era mistério o fato de que eu o tinha jogado da janela do primeiro andar.

Tenho um curso trancado. Que há muito me custa aguentar a saudade. E tenho uma paixão rasgada por hospitais e cuidados. Gosto de injeções e nomes de remédio. Não admito que gosto de limpar ferimentos e observar cirurgias, mas gosto.

O que me faz estar aqui, escrevendo aleatoriamente pedaços de mim? Não sei, necessidade. Essa antiga mania de sentir, esse súbito desejo de divã, de conselho, de caminho.

Não sei, não sei quanto tempo durará as minhas internas confissões. Mas, os meus relatos são verdade. A minha mais suprema verdade.

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