Agora que tudo sangra e dói, e que, acredito no fato que tenho oitenta anos disfarçados nesse corpinho de vinte, acho que estou ansiosa para trilhar novas distâncias.
É... Não quero mais ver nada do que já conheço, nem quero mais provar nada que já provei nem acreditar de novo nas antigas crenças... Sabe como é, não tem mais cola que dê jeito nesse coração burro que até já costurei sem anestesia e com linha de nylon.
Tô em busca de coragem. E de uma mochila bem grande.
O espelho, não, esse eu deixo.
Como não tenho boa coluna, vou carregando pouco peso. Umas blusas, uma calças, roupas íntimas, uns velhos poemas e umas saudades. Nada de tristeza desesperadora, saudades são boas companheiras de partida-sem-retorno.
Vão comigo, além disso, algumas imagens sim, outras não. Uns santos sim, outros não. Uns desejos não e outros não... Desejos não são bons, atrasam os passos, distanciam os caminhos. Esses eu deixo, junto com o espelho e as coisas que amo.
(Coisas que mais amamos, também prendem e ficam presas, melhor deixa-las, para que ganhem asas.)
Com dó, deixo uns sorrisos, num vidro com éter.
As metades do coração em dois lugares do país.
Os livros e dvd’s.
As mágoas que fazem bons escritores.
Sem nada escrito em sua lápide.
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