Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada
Pavorosa! Não sei onde era dantes.
Meu solar, meus palácios, meus mirantes!
Não sei de nada, Deus, não sei de nada! ...
(Florbela Espanca)
Preciso, há dias, escrever algo triste.
Algo que me alivie esse peso da alma.
Preciso, urgentemente, de uma injeção semi-letal. Que me paralise os desejos, os batimentos cardíacos. Que me estraçalhe a medula, quebre-me a Atlas, ensurdeça-me, emudeça-me.
Algo que me poupe só os olhos. E a consciência.
Mas é tudo tão recorrente.
Já embrulhei meus sonhos em papel reciclado e joguei ácido. Esquartejei o último fio de luz que insistia em brilhar nos meus impulsos cerebrais.
Já tranquei a persiana e a caixinha de música.
E mesmo com tanta dor, lembrei de isolar as memórias mais ternas no subconsciente.
Nada foi eficaz, só adormeci. Meus pesadelos, guardados a sete chaves, ardiam como incêndio no meio de um canavial em Junho.
Rasguei meu mundo.
Abri meus olhos e, em impulso, separei as minhas coisas e guardei o meu jaleco.
Cansei de abraçar um sonho que não me cabia.
De branco, restou-me o medo, essa luz tão forte que me cega.
Mas o fato é que preciso, há dias, escrever algo triste.
Algo como veneno e calma.
Que re-espalhe cor na minha íris verde. Que cegue essa maldição de desejar, da alma.
(Jessiely Soares)
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